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DE DOMINIO
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Está
tudo dominadoPor Rodrigo Martins
Restrita a cerca de 60 mil usuários acadêmicos até 1995,
a internet brasileira precisou de pouco mais de uma década para ultrapassar
a marca de 1 milhão de endereços com a terminação “.br”.
Recém-alcançado, o número pode impressionar à primeira
vista, mas é bastante modesto diante dos 105 milhões de domínios
existentes no mundo, a maioria dos quais concentrada nos Estados Unidos e na
Europa. Ainda assim, garante ao Brasil uma posição entre as dez
nações com a maior presença na web. O
fenômeno é decorrente de um aumento anual de 20% no cadastro
de endereços brasileiros, algo em torno de 11 mil novos domínios
por mês. “Não há dúvidas que a participação
do País nas diretrizes será cada vez mais relevante”, comemora
Demi Getschko, diretor-presidente do Núcleo de Informação
e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), entidade sem fins lucrativos,
responsável pela administração dos domínios nacionais.
Alguns especialistas, contudo, não vêem motivo pra festa. Há quem critique a demora do país em chegar a esse patamar, uma vez que mais de 21 milhões de brasileiros utilizam computadores conectados à internet em casa, a sétima maior taxa de acessibilidade do mundo, segundo o Ibope/NetRatings. Outros lamentam a burocracia para o cadastro de novos endereços, o que impõe limitações ao crescimento do setor. De toda forma, quase todos concordam que o mercado continuará em expansão, impulsionado pelo barateamento nos custos de hospedagem dos sites e pelas oportunidades de negócios em torno da publicidade on-line. Fora, é claro, os numerosos casos de espertinhos que registram domínios com palavras-chave, nomes de empresas e artistas de olho em uma venda futura.
“O cenário não é ruim, mas o Brasil pode crescer muito mais do que o verificado nos últimos anos”, opina Erica Saito, gerente de Marketing da VeriSign na América Latina, empresa que controla o portfólio global de domínios “.com” e “.net”. “Nós já estivemos na sexta colocação no ranking e, agora, ocupamos o décimo lugar. O País perde posições por não acompanhar o crescimento mundial, hoje na faixa dos 30% ao ano”.
Na avaliação da executiva, a exigência de muitos documentos para o registro de um domínio “.br” torna o processo excessivamente moroso e desestimula as empresas de menor porte. “A Espanha deixou as regras mais flexíveis e teve um crescimento de quase 400% no último ano. A França fez o mesmo e aumentou o número de domínios em 90%”, compara.
Frederico Neves,
diretor de Serviços e Tecnologia do NIC.br, não
concorda com a crítica. “O nosso papel é prestar um serviço
para a rede, e não vender domínios a toque de caixa. Isso só incomoda
aqueles que tentam lucrar com a especulação no comércio
de domínios, até porque o usuário comum pode efetivar
o cadastro em menos de oito horas”.
Os ataques à liberalização no cadastro de novos endereços
são endossados pelo diretor-presidente do NIC.br. De acordo com Getschko,
o comércio de domínios “.com” é tão
intenso que mais de 50 milhões de endereços são registrados
e excluídos em menos de um mês. “Muitas empresas testam
uma palavra-chave para ver se o site tem visitação. Se a estratégia
funcionar, elas usam a página para lucrar com a hospedagem de links
patrocinados. Caso contrário, desistem logo do domínio”,
explica.
É difícil calcular o volume de dinheiro que circula nesse setor. A taxa cobrada pelos registros nacionais varia de país para país. No Brasil, onde o serviço custa 30 reais, estima-se que a receita gerada seja de , no mínimo 30 milhões de reais por ano. Na Argentina, é totalmente gratuito. Os domínios internacionais, a exemplo do “.com’ e “.net”, são vendidos a preço de mercado, com grandes variações entre o que é cobrado por uma empresa ou outra empresa habilitada a efetuar cadastro na web.
Em alguns casos, a diferença entre os preços também depende da palavra registrada, como comprova um leilão de domínios realizado em Hollywood na última semana. Enquanto um endereço convencional pode ser comprado por menos de 10 dólares, a administradora Moniker.com tentou vender o endereço hell.com por 1 milhão de dólares. Não houve interesse pela página do “inferno”, mas outros endereços cadastrados com palavras-chave tiveram um resultado melhor. Na mesma ocasião, o cameras.com foi arrematado por 1,5 milhão de dólares. O sexeducation.com custou 120 mil dólares.
A estratégia de registrar domínios com palavras que representam categorias de produtos levou o micro empresário Adriano Viegas, de 46 anos, a comprar mais de 300 domínios em 1996. Ainda hoje ele mantém cerca de 40 endereços, como o brinquedos.com.br. “Em parceria com o Google Adwords e o Buscapé, nós organizamos um catálogo com mais de 3 mil anúncios. O site tem uma média superior a 1,1 milhão de pageviews por mês”, diz Viegas. Mas ele garante que não explora todos os domínios que possui com links patrocinados. “Meu principal negócio é um site que faz reservas para uma rede de hotéis e pousadas conveniadas.”
Essas experiências, no entanto, representam pouco dentro do mercado de anúncios pay-per-click. “Há empresas que possuem mais de 40 mil domínios disponíveis para o mecado publicitário”, afirma Agenor Castro, gerente de Marketing do grupo Yahoo! Na América do Sul. Apenas nos Estados Unidos, a publicidade on-line movimenta mais de 5,8 bilhões de dólares por ano e 40% dessa soma é destinada a links patrocinados. “O mercado brasileiro ainda engatinha. Cerca de 15% da publicidade on-line é reservada para esse tipo de anúncio, algo em torno de 30 milhões de reais.”
No sistema pay-per-click, o anúnciante não paga pela exposição da propaganda, e sim pelo número de vezes que o internauta clica no link da empresa, geralmente apresentado no topo de uma página de buscas ou em destaque nos sites de interesse. O Yahoo! Do Brasil cobra, no mínimo, 15 centavos de real por clique. Mas o preço varia de acordo com a palavra-chave e a posição que o anunciante deseja na lista de links patrocinados. Além de algugar espaço para publicidade em suas próprias páginas, o Yahoo! Trabalha em parceria com dezenas de outros sites e portais, como o iG e o Ibest. Todos eles recebem uma porcentagem dos lucros obtidos com esse tipo de anúncio.
Outro fator que estimula o crescimento do mercado de domínios no Brasil é o barateamento nos custos de hospedagem. Isso acontece porque, para ter uma home page, não basta simplesmente registrar o endereço na web. É necessário abrigar um site em um servidor. “O custo desse serviço diminui bastante nos últimos anos. Hoje, existem bons pacotes por 30 reais mensais”, garante Gilberto Mautner, vice-presidente de TI e novos negócios da Locaweb, que hospeda mais de 2,5 mil novos sites por mês.
Algumas empresas de hospedagem costumam vender domínios a preço de custo. O lucro é obtido com os serviços agregados, como o aluguel do servidor, a assistência de webdesigners e o gerenciamento de e-mails. Mas também existem aqueles que ganham dinheiro exclusivamente com o comércio de domínios, especialmente com a venda de endereços que têm a extensão “.com” e “.net”. Detentora do monopólio desse tipo de registro, a VeriSign não presta o serviço diretamente ao usuário, como faz o NIC.br com os domínios nacionais. Por isso, há uma rede de distribuição da empresa americana em todo o mundo. Para o revendedor, o custo de cada domínio é de cerca de 6,5 dólares. O que é cobrado além desse valor vai para o caixa das empresas credenciadas.
Para Ricardo Vaz Monteiro, diretor executivo da Nomer.com, a falta de informações é um entrave para o desenvolvimento do setor. “As pessoas não sabem o que é preciso para montar um site ou registrar um endereço”, lamenta. Em 2005, ele lançou um guia (www.escolhaoseu.com) para orientar o usuário na seleção de um domínio. “O livro apresenta dicas simples, como a escolha de nomes curtos para o endereço. Isso facilita a memorização e evita erros de digitação.”
Outra sugestão de Monteiro é o registro simultâneo do mesmo nome em domínios de extensões diferentes. Uma empresa, por exemplo, deve garantir tanto o registro “.com” como o “.com.br”. “Se ela não tomar essa precaução, corre risco de que algum espertinho faça o registro antes, para o uso inadequado da marca.”
Recentemente, o Banco Itaú recorreu à Justiça para poder usar o próprio nome. Um desconhecido registrou os domínios bancoitaú.com e itaúpersonalité.com, ambos com acento, e tentou vendê-los por 50 mil reais cada. Proprietário de mais de 270 domínios com a palavra “itau”, o banco não aceitou a oferta e entrou, em julho de 2006, com uma queixa na Organização Mundial de Propriedade Intelectual (OMPI).
A investigação, conduzida por três árbitros do órgão internacional, concluiu que os endereços eram idênticos à marca da instituição financeira e, no fim de setembro, decidiu pela transferência dos domínios ao Itaú.
De acordo com a advogada Patrícia Peck, especialista em Direito Digital, o problema é bastante recorrente. “A utilização irregular, ilegal e predatória do nome da empresa, bem como o cadastro de domínios similares, pode configurar crime contra o registro da marca e de concorrência desleal, basta consultar a Lei da Propriedade Industrial”, alerta.
Quando a disputa é por um domínio internacional, como no caso do Itaú, geralmente o processo é conduzido por meio de uma arbitragem da OMPI. Se a queixa estiver relacionada a um endereço “.br”, a empresa reclamante pode acionar a Justiça brasileira. A pena para o crime pode chegar até a um ano de detenção, mas geralmente acaba em um acordo entre as partes ou com o pagamento de indenização.
O escritório de Patrícia oferece um trabalho de prevenção às empresas. “Monitoramos a web para identificar pessoas que utilizam um domínio similar ou com erro de digitação, na tentativa de obter vantagens indevidas ou realizar fraudes.” A equipe da advogada também procura mapear todos os endereços que o cliente precisa cadastrar para evitar esse imbróglio. “Uma vez recomendamos o registro de mais de 300 domínios a uma única empresa, Além de aumentar a visitação do site, a manutenção desse endereço é muito mais barata do que um processo judicial.”